Relato de Parto

A tradição de contar histórias é antiga e, como muitas coisas maravilhosas, foi-se perdendo. Histórias curam, aliviam a alma de quem conta, alimentam a alma de quem escuta, sendo uma troca importante que nos ajuda a conhecer de onde viemos, imaginar para onde podemos ir e sentir a vivência do outro enquanto ouvimos.

Histórias de parto são muito importantes por diversos motivos, elas são a oportunidade de saber como foi o nascimento de um bebê que talvez você conheça, como é o parto pela visão de outra mulher e ver que nem toda história tem que ser necessariamente negativa.

Estamos acostumadas a escutar nossas mães nos contando como foi nosso parto, mas a memória sempre falha e os detalhes ficam de fora. Escrever sua história enquanto ela ainda está fresca pode ser muito libertador, pode te ajudar a entender o seu processo e curar ou aliviar qualquer dor que você esteja guardando com relação à ela.

Nós gostaríamos de publicar histórias de parto aqui no blog mensalmente e, quem sabe, formar uma colcha de retalhos gostosa, com superação, lágrimas ou o que quer que o seu relato traga, adoraríamos saber como foi essa experiência para você.

A primeira história é a da Gabriella, nossa doula daqui do Tris Doulas, e ela vai contar a história do nascimento do Lorenzo.

~

Ser mãe nunca foi uma meta de vida para mim. Eu sabia que seria um dia, sempre gostei de crianças mas nunca tive aquela loucura em ser mãe. Quando aconteceu eu fiquei, a princípio, meio chocada. Embora estivéssemos abertos à essa possibilidade, quando ela chegou eu lembro de me sentir estranha, como se estivesse fazendo algo errado, ou se precisasse de permissão. Eu lembro bem dessa sensação.

Parir para mim também nunca foi meta de vida, sempre soube que bebês saiam, claro, mas nunca tinha pensado muito nisso. Cresci ouvindo a história de terror que foi o meu parto, um parto pélvico que quase matou minha mãe, então tinha um certo receio. Como engravidei no Reino Unido e meu bebê nasceria aqui, eu sabia que o parto seria normal a não ser que houvesse uma real necessidade, e isso sempre me deu segurança. Me informei bastante sobre o parto, li livros e assisti vídeos e filmes, fui à aulas, conversei bastante com o meu marido, me achava mesmo pronta para encarar a maratona.

img_0100.jpgEntão, madrugada de sábado para domingo, de 03 para 04 de agosto, eu acordei com uma cólica, fui ao banheiro e quando eu vi que tinha um pedaço do meu tampão na calcinha fiquei em êxtase. Comecei a sentir, desde ali, cólicas fraquinhas e que foram aumentando, já chatas e constantes o suficiente para eu não conseguir deitar. Deitar aliás era a pior posição. Passamos o domingo inteiro em casa, eu ia para o chuveiro, ficava na bola, apoiava no encosto da cadeira para tentar dormir, mas era bem difícil. Embora elas não estivessem constantes e ritmadas, as contrações já estavam doloridas o suficiente para eu não conseguir ignorar. Domingo passou, segunda chegou e eu tirando esses cochilos, não muito eficientes, entre as contrações que espaçavam um pouco, depois voltavam mais fortes. Eu fiquei sabendo depois que aquilo eram os tais dos pródromos, ou fase latente e que poderia levar semanas… ah que máximo… só que não.

Segunda a noite eu já estava muito cansada, achando que não era possível isso, e pedi para ir pro hospital. A jornada no carro foi uma tortura, mas eu trocaria 100 jornadas dessas pela notícia de que eu tinha dilatado nem 2 centímetros em mais de dois dias… Balde de água fria não descreve a sensação. Voltamos para casa e passamos outra madrugada tentando me deixar confortável, tentando dormir, tentando distrair, tentando… Terça de manhã era minha consulta de 40 semanas com a midwife e ela me ofereceu checar meu cervix de novo, que estava ainda com 2 centímetros, e então me propôs fazer o descolamento de membranas. Ela me disse que se meu corpo não estivesse pronto não adiantaria nada mas que se estivesse daria um gás, então eu topei. Chegando em casa mais um monte do tampão saiu e as contrações começaram a ficar mais fortes (você percebe que está desesperada para as coisas engrenarem quando celebra contrações mais fortes). A gente saiu para caminhar, subi e desci escada, fiz bastante coisa naquela terça. De madrugada eu já estava exausta sem dormir, mas a dor já estava mais consistente então eu pedi para ir pro hospital. Quando chegamos lá na triagem elas me checaram de novo e, tcharam – 5 centímetros! Trabalho de parto ativo e poderia ficar na Casa de Parto do hospital! Eu juro que senti um alívio de estar no hospital, mais perto das drogas.

IMG_0018.JPGO quarto que me deram era do tamanho da minha casa, tinha absolutamente tudo. Banqueta, chuveiro, banheira, bola – pensa ai… tinha! Ficamos lá a manhã inteira e foi muito legal mudar os ares um pouco, deu uma energizada. A banheira também me deu um ânimo e consegui relaxar entre as contrações, que por sinal nunca ritmaram. Lá pelas 17:00 me ofereceram um novo exame de toque e viram que eu estava com 7 para 8 centímetros mas a cabeça do bebê estava numa posição ruim, o que talvez explicasse a progressão tão lenta. O problema é que eu já estava com muita vontade de fazer força mas nesse momento elas me pediram para lutar contra essa vontade, para deitar de lado por que ainda não era a hora, só coisa que eu não conseguia ou queria fazer. Meu impulso era ficar de pé e empurrar o bebê pra fora… Esse foi o momento mais difícil do meu trabalho de parto – lutar contra o impulso de fazer força – mas eu consegui manter a calma de alguma forma e fiz o que elas me pediam para poder ajudar o bebê a ficar numa posição melhor para nascer. Depois de umas 2 horas elas me checaram de novo e a cabeça tinha mudado de posição, mas elas estouraram minha bolsa artificalmente com o intuito de acelerar o trabalho de parto, visto que eu já estava realmente muito exausta todos esses dias com dor e sem dormir. Claro que tinha mecônio no líquido, por que né… Eram mais ou menos umas 19:00 e eu lembro da midwife me dizendo que se nada acontecesse em 2 horas elas iriam me transferir pro labour ward pois ali elas não poderiam me oferecer mais nada. Eu me desesperei um pouco nessa hora e já comecei a pedir as drogas, pedir cesárea, foi aquele auê que meu marido dá muita risada quando lembra, deve ter sido hilário mesmo para todo mundo que não era eu… Enfim, nessa hora ele me puxou de lado e me disse uma coisa que eu nunca me esqueço – “Você chegou tão longe, você quer tanto isso, tá dando tudo certo. Como você vai se sentir se você desistir agora que falta tão pouco?”

IMG_0040.JPGEssas palavras foram tudo o que eu precisava ouvir, elas me trouxeram de volta. Eu percebi, naquela hora, que minha mente tava sendo minha inimiga e que era comigo! Se o problema era dor, cansaço, eu poderia superar, não havia perigo, estava tudo sob controle e eu tinha que retomar o controle também. Então eu comecei a me sentir diferente, não me lembro muito dessa parte mas o meu marido me diz que eu parecia o Hulk, urrando e tal. Quando eu foquei no meu processo e no meu corpo de novo as coisas fluíram, me lembro de sentir o Lorenzo descendo dentro de mim e de ter ficado com medo de ele cair no chão do banheiro. O Gui diz que nessa hora ele ficou assustado por que eu estava meio fora de mim, com certeza em transição, mas eu não estava fora de mim, pelo contrário, eu estava 100% do lado de dentro. As parteiras viram que eu estava perto de parir e tentaram encher a banheira de novo mas não deu tempo – elas esvaziaram pois eu seria mesmo transferida para o labour ward, já eram umas 21:00 e minhas 2 horas tinham acabado. O expulsivo foi bem rápido, foi um alívio poder usar essas contrações para alguma coisa. Entre uma e outra eu lembro que não tinha absolutamente nenhuma dor, o expulsivo foi a parte mais fácil de todo o processo pra mim, com exceção do círculo de fogo que realmemte doeu bastante. E então ele nasceu na cama, às 21:30 de 07 de Agosto de 2013, o quarto escuro e só a luz da lanterninha da parteira apontando o caminho para ele chegar. Eu juro que o tempo parou nessa hora. Não sei explicar, foi um alívio por ter acabado, misturado com uma incredulidade imensa em saber que eu tinha conseguido. Ele ficou comigo o tempo inteiro, fizemos pele com pele, ele mamou,  chorou e eu cheirei aquele filhote de mim até o cheiro impregnar minhas narinas o suficiente para eu nunca mais esquecer. Mediram e pesaram só um tempo depois, ali do meu lado mesmo – 52cm e 3.735kg (que, por incrível que possa parecer foi exatamente o peso que eu chutei quando a parteira me perguntou), tudo bem respeitoso. Eu tive uma laceração mínima que não precisou de ponto.

Acho que o parto em si foi difícil pois eu tinha muito medo. Do desconhecido, do meu corpo não suportar a carga, de ser mãe. Eu sei que eu não me ajudei no início com esses medos todos mas a minha jornada até o Lorenzo chegar foi toda importante, foi um imenso aprendizado. Eu sabia, desde o começo, que não seria fácil por que o nascimento de um ser humano é um momento grandioso demais para ser simples. Eu aprendi, ali na marra, que a dor é parte do processo mas que ela só poderia ser do meu tamanho, nunca maior do que eu. E eu entendi que desistir faz parte do processo e que ter o apoio de alguém que acredita em você, especialmente quando nem mesmo você acredita mais, é essencial. Para mim foi tudo e sou e serei eternamente grata ao meu marido/doulo/líder-de-torcida por esse apoio incondicional que ele me deu naquele dia tão especial, o dia do nascimento da nossa família.

 

 

6 thoughts on “Relato de Parto

  1. É indescritível a emoção somente no relato e imaginando estar vivenciando tamanha sensação. Tenho três filho de parto cesária, o que muito me entristeceu por anos, hoje não mais…foi como deveria, aliás três cesárias e uma “filha” do coração que nasceu do reencontro de duas pessoas que sentem um amor profundo…não é Gabi? Minha “filhinha” que escolhi. Lendo o seu relato é como se estivesse presente acompanhando a sua transformação. Atualmente tenho me preparado para encarar o nascimento do meu neto, qua ainda não foi projetado…rs, mas na certeza que minha filha está muito intencionada em ter um parto humanizado, quero estar totalmente ao seu lado para encorajá-la nesta emoção sem igual. Gabi…Guilherme e Lorenzo, não temos muito contato, um grande horizonte nos separa, mas nada diminui o amor e a sensação de estarmos tão próximos. Muito feliz que hoje é uma “doula” oportunizada em envolver com o seu amor maternal a chegada de novos “irmãozinhos”. Parabéns!

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  2. Que história mais linda Gabi!!!! Parabéééééns pela sua força, parabéns pela sua história, parabéns pelo seu marido, parabéns pelo seu bebê!!! São histórias como essa que nos inspiram a continuar. Bjs 😘

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